26.4.10

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Pietro Ubaldi, o
Pensador do Terceiro
Milênio, o Apóstolo
de Cristo.




Cristo e São Francisco Caminham com Pietro Ubaldi


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1931. Há quatro anos, Pietro Ubaldi fez o voto de pobreza. Há dois milênios, ele havia, por um momento de vacilação, negado ao Cristo. Estaria, agora, disposto a ser o Seu Servo, fiel em todos os momentos de sua vida? A missão era grande e ele não sabia, porque não se recordava de todo o plano traçado antes do seu nascimento. A intuição apenas o avisava que devia preparar-se para essa nova mudança e a hora de iniciar estava se aproximando. Para assumir a tarefa missionária, era indispensável a renúncia total aos benefícios que a riqueza lhe proporcionava. O voto de pobreza foi necessário, mas não suficiente.

Por coincidência ou não, foi anunciada uma vaga para professor de inglês, em Módica (Sicília), a ser conquistada através de concurso público, idade máxima 45 anos. Essa vaga foi no Liceu Ginásio Tomaso Campailla e a Sicília é a última região no sul da Itália, a centenas de quilômetros de Roma. O sul italiano é mais pobre do que o norte, e Roma fica no centro. Toda a região franciscana fica ao norte da Itália, onde Ubaldi tinha nascido e viveu, até 1952, quando se transferiu para o Brasil.
A oportunidade era muito boa, nada mais o prendia naquele ambiente em que vivia, a não ser o cumprimento dos seus deveres para com a família, podendo fazê-lo, mesmo a distância e com visitas periódicas. Assim, ele poderia realizar o maior sonho de sua vida: trabalhar para Cristo.

Candidatou-se, preparou-se, fez o concurso e foi aprovado, em primeiro lugar. Um novo concurso só aconteceu dez anos depois.
Foi nomeado. Agora, a incerteza toma conta de sua alma. Pietro Ubaldi, também, era humano. Abandonar o seu ninho doméstico, onde sua querida irmã dor lhe fazia tão boa companhia? Deixar o conforto material, que sabia desfrutar tão bem, para optar por um quarto alugado em uma daquelas ruas de Módica? Esta não era sua cidade de preferência... Apenas um consolo lhe restava: viveria os ideais franciscanos, seu maior desejo — mesmo antes de fazer o voto de pobreza e Cristo aparecer-lhe. Essa lembrança tomou conta de seu espírito, envolveu-o e reanimou suas forças para decidir se tomaria posse ou não.

A primeira mudança, aos 5 anos (quando entrou para a escola), alterou-lhe os hábitos, porque passou a viver dentro e fora do Palácio Alleori Ubaldi; a segunda mudança, aos 25 anos (o casamento), obrigou-o a ter uma vida em comum com esposa, filhos e bens materiais; e esta terceira mudança, aos 45 anos (renúncia total), forçava-o a uma vida solitária, longe dos seus, em um quarto pobre, sem conforto algum. O seu 45° aniversário já havia comemorado a sós com Deus e não era mais jovem para novas mudanças, mas coragem não lhe faltava. Depois de uma imersão em seu íntimo, de examinar a questão em profundidade, decidiu: tomaria posse e viveria o Evangelho na íntegra. Existem certas decisões que só devem ser tomadas perante a própria consciência e Deus. Na primeira semana de setembro de 1931, “a grande decisão tinha sido tomada, sumariamente, amadurecida no silêncio da noite”. Desceu do terceiro andar da torre, onde dormia, na Tenuta (chácara) Santo Antônio, em Colle Umberto, e penetrou na residência da família (sobrado) contígua à torre. Tomou o seu copo de leite e saiu para dar o pequeno passeio matinal, acompanhado do cãozinho de estimação.

“A perspectiva era dura, e a luta para vencer não foi fácil. Mas o espírito venceu, o Evangelho tinha triunfado, apesar de saber que aquele ato significava o início de outro tipo de vida: em lugar da existência do rico ocioso num bem-estar que não foi ganho, a de quem deve ganhar, com o seu próprio trabalho, o pão cotidiano. Era outro modo de vida, a que permaneceu fiel até o fim.

Aquele homem subia a colina com o coração leve, envolvido na euforia de um triunfo espiritual. Uma espécie de potente vibração em alta tensão se estava concentrando e acumulando dentro dele. Ao mesmo tempo, sentia, confusamente, que alguma coisa, ainda não perceptível, estava condensando-se à sua volta, sem forma ainda definida. A tensão ia-se tornando sempre mais intensa. Que estaria acontecendo? Algo de irresistível se estava apossando dele. No entanto, continuava bem desperto, em plena consciência. Caminhava lentamente, via, observava, apercebia-se de tudo. Não estava sonhando. Uma realidade nova o golpeava, diversa daquela sensória, já tão familiarizada. E andava, observando e confrontando. com atenção e plena lucidez da mente, as duas realidades.

Uma capacidade perceptiva, diferente da normal, advertia-o da presença de outros seres perto dele, vivos, entidades pensantes como ele. Mas ainda não conseguia individualizá-las, perceber-lhes a forma e o pensamento.
Continuou a subir até que desembocou numa larga vereda, no cume da colina que agora era um plano com algumas oliveiras espalhadas pela amplitude. Solidão silenciosa. Aqui, diminuiu o passo. Eram quase 11 horas da manhã.
Continuou o caminho, com ele avançando as duas formas paralelas. Isto durou cerca de vinte minutos, pelo que teve tempo de controlar tudo e de fixá-los em sua memória, para depois analisar o fenômeno com a psicologia racional, positiva, independente de estados emotivos, melhor não o poderia fazer: desliga-se do fenômeno ao desdobrar-se nas duas posições de sujeito e observador, fundidas ambas, agora, no mesmo funcionamento.

Continuou a observar. As duas formas não constituíam só uma indefinida manifestação de presença. Cada uma delas transmitia à sua percepção interior uma típica e individual vibração que a definia como pessoa. Foi assim que ele pôde logo sentir com clareza inequívoca que à sua esquerda estava a figura de S. Francisco e à sua direita a de Cristo. Eles se deslocavam com ele, caminhando, mas não havia colóquio, nem transmissão de pensamentos particulares. A presença deles se concentrava, acima de tudo, numa solene afirmação da própria identidade individual.
Não houve testemunhas humanas. Será que, se tivesse havido, elas teriam percebido? Ou fora bom que não tivesse existido, pois, assim poderiam ter impedido ou paralisado o fenômeno?

No entanto, a observação foi exata até ao ponto de se notar: houve uma pequena testemunha e ela demonstrou ter sentido que alguma coisa estava acontecendo. Aquele homem estava acompanhado do seu cachorrinho, acostumado a andar a sua volta. Pois bem, naqueles poucos minutos, ele se comportou diversamente do habitual. Ele se manteve a sua volta, ladrando para alguém ou alguma coisa que devia estar percebendo perto do dono. Sem este fato não se explica tal comportamento excepcional, que não tinha outra causa aparente naquela solidão. Aquele cachorro não podia falar e dizer o que havia percebido. Mas era certo que demonstrava haver sentido qualquer coisa.

Percorrido aquele trecho do caminho e aquele breve período de tempo, a alta tensão não pôde ser mais suportada, e a visão se desfez lentamente. Não ficou senão o ambiente externo, aquele que os sentidos físicos normalmente percebem, somente as coisas que todos vêem e às quais, porque se vêem sempre, pouca importância se dá.

O céu se fechou e tudo voltou corno antes, como se nada tivesse acontecido. A visão, no entanto, ficou indelével, gravada a fogo naquela alma, como uma queimadura de luz, uma ferida de amor que jamais o tempo poderá cancelar, feita de saudade, de uma contínua e angustiante espera para se reencontrar. A visão passou como uma arrebatadora paixão que queima, mas fecunda, deixando uma semente n’alma. Ela ficou escondida, depois germinou durante sua existência terrena; cresceu, frutificou, produziu novas sementes, para depois brotar, crescer, frutificar novamente noutro lugar, noutras almas; operando o milagre da multiplicação da vida em mais alto nível, no plano espiritual. Desde o momento em que aconteceu aquele fato interior, que não foi visto, talvez, por mais ninguém a não ser ele, aquele homem não mais parou”.

No dia 23 de setembro de 1931, Pietro Ubaldi tomou posse da cadeira de professor de inglês do Liceu Ginásio Tomaso Campailla. uma posse tão simples quanto a simplicidade que iria viver, na longínqua Sicília, a partir daquele dia, num quarto alugado, diante da Igreja São Pedro, o Apóstolo.